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Dia 6. Os Espaços Sagrados

A Natureza, manifesta dentro e fora do nosso corpo, em todas as paisagens e sociedades, inicia-nos vez após vez, dia após dia, através dos sentidos que nos colocam em contacto com ela. É por toda a experiência humana ser uma iniciação contínua que entendo que tudo o que o corpo nos comunica é sagrado, isto é, capaz de nos mergulhar na Vida profunda.

Mas esta iniciação acontece em dois movimentos, ambos necessários e insubstituíveis. Estando nós plenamente incarnados — e é proveitoso que assim seja numa via que se diga telúrica — a nossa iniciação sobretudo acontece-nos; apanha-nos de surpresa. Se nos mantivéssemos em constante modo de busca, provavelmente interromperíamos o processo de forma precoce. Ocasionalmente, porém, precisamos de inverter o seu sentido. Nos momentos em que Cerridwen não nos persegue de forma tão intensa, somos nós que vamos ao seu encontro, e convidamos o Awen a apressar-se na sua visita.

Esses são momentos em que assumimos o nosso lugar no Cosmos, isto é, em que nos (re)conhecemos no Centro. Não nos enganemos: a iniciação não é compatível com o delírio antropocêntrico. Esse lugar de soberania e de dependência fica junto do Fogo que nos desvenda a nós mesmos, que nos coloca face-a-face com todos os seres na grande Roda, numa Presença plena e desassombrada. O Fogo que, uma vez partilhado, liga o cerne da alma ao Centro do Mundo.

Partilhamo-lo nas velas que acendemos nos altares de casa, nos pequenos-grandes recantos onde alimentamos as memórias dos antepassados, o poder dos espíritos do lugar, o fascínio por quem permanece quando tudo passa. Partilhamo-lo junto da fogueira na clareira do bosque, quando no meio do silêncio há um Silêncio maior à espera, tão claro e audível quanto o som do vento a dançar com as árvores. Partilhamo-lo ainda de quadrante em quadrante com o resto da tribo e o mundo inteiro, quando o Nemeton se enche para celebrar as estações, as luas, os ritos de passagem entre as muitas vidas que esta vida contém.

Há quem veja nas chamas dos espaços ditos sagrados uma recuperação do Fogo criador de Brighid, aquela que incendeia as lareiras de casa, os fornos das oficinas, os corações dos Bardos. Ao continuarmos pelos nossos gestos a acção criadora da Vida invicta, perpetuamos também os seus efeitos estruturantes no Mundo. Dito de outro modo, sempre que visitamos um altar para recriar o Cosmos, aceitamos o desafio de contribuir para a sua ordem, e portanto construir relações mais justas, connosco e com todos os seres.

Dito de outra forma ainda, a vocação para o sagrado é a vocação para a Paz. E Paz profunda.

No mais íntimo, no mais profundo do meu ser, que eu encontre a Paz.
No silêncio, na tranquilidade do Bosque, que eu partilhe a Paz.
Por bondade, no seio da Humanidade, que eu irradie a Paz.
— pela Ordem dos Bardos, Ovates e Druidas.

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