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Sobre isto de alguém se fazer Bardo

Pergunto-me muitas vezes o que faz do Druidismo aquilo que é. Ou melhor, o que faz do neo-druidismo um caminho assim tão diferente dos outros, especialmente quando consideramos as muitas influências que partilha com outras correntes de espiritualidade. Deixando de parte por um momento a divisão seminal entre o druidismo revivalista e o druidismo reconstrucionista e/ou politeísta, que eu pessoalmente penso serem complementares como se vê na prática de algumas pessoas, prefiro perguntar qual a finalidade de se ser e ser chamado de druida. Qual o bem que se traz a todos os seres quando se pratica este caminho em particular. E mais especificamente, como se pode manifestar no mundo certos papéis típicos de um druida no nosso mundo actual, nos nossos trabalhos, nas nossas vidas diárias, sobre-interligadas, sobre-interrompidas, em nada semelhantes às classes sacerdotais de outras eras.

Uma das minhas intuições básicas sobre o que pode ser o núcleo do druidismo é que um druida é alguém que reconhece o poder inerente das histórias e da poesia. De uma história bem contada. Muitos livros foram já escritos sobre o assunto, e eu poderei juntar um volume da minha pena à lista, um dia. De facto, em várias ordens neo-druidas revivalistas actuais, o papel do bardo é combinado com o arquétipo do druida, e os seus currículos tendem a estar organizados em três graus, com o aspecto do ovate a aparecer algures no meio. Portanto o ofício do bardo parece algo de tremenda importância para muitos no caminho do druidismo, e o facto é que acabamos regularmente a ser incentivados a desenvolver as nossas capacidades bárdicas, quer através da escrita ou do canto, quer a contar histórias ou com artesanato, com algum teatro e psicologia misturados no meio.

Mas nem todos nós neste caminho nos consideramos artistas. Poucos de entre nós conseguem sustentar-se de facto com as suas incursões artísticas, e entretanto a nossa rotina diária continua com a sua forma habitual de nos convencer que a nossa espiritualidade é algo para se fazer como acompanhamento nas horas vagas à verdadeira vida. A vida trabalhadora, responsável, maçadora que nos vem matando aos poucos. E além disso, em vez de nos meterem a aprender umas quantas dúzias de poemas de cor ou a tocar harpa como os “verdadeiros” bardos, somos aconselhados a praticar meditação e visualização, e praticá-las diariamente ou o mais frequentemente possível, trabalhar com os elementos, aprender uns quantos mitos… E sim, se ainda houver tempo, escrever um bocado mais que o habitual e talvez aprender um novo ofício.

O que faz do grau de Bardo numa tradição como a Ordem dos Bardos, Ovates e Druidas algo diferente de ser um neófito em qualquer outra escola de mistérios herméticos ao nosso dispor nos nossos dias? Senão vejamos, os membros da AMORC também acreditam numa Ordem perene no íntimo do universo a par da Ordem visível, recebem monografias pelo correio e têm exercícios de meditação para aprender e praticar. Os quatro elementos clássicos e o conceito de fazer ritual num círculo foram retirados da magia cerimonial, de inspiração judaico-cristã, que por cá andava muito antes sequer de a Wicca existir. E a Cabala? Bem, muita da filosofia básica que podemos aprender com o neo-druidismo pode ter pingado directamente dos sephiroth da Árvore da Vida, mas isso seria uma base de trabalho algo alienígena para os povos antigos do Noroeste Europeu. Mesmo que os antigos Celtas fossem já, porventura, monistas.

O nosso caminho é um caminho interrompido que persistimos em emendar e reconstituir com blocos de dimensões e formas imprevistas à medida que os encontramos na estrada. Tal como a maioria das novas tradições telúricas, aliás. Então, que tipo de Druidismo e que tipo de ofício de bardo é este?

Para mim, mesmo para quem não é um artista, ser um Bardo hoje implica viver a vida como o melhor dos artistas. A artista que reconhece o quão poderosas e mágicas as palavras podem ser. Os gestos. As acções. O artista que tem consciência que está numa constante performance na Terra, dentro e fora de palco, das 9 às 5 ou enquanto vai na estrada, e talvez até mesmo a dormir. A artista que sabe quem é e portanto não tem se preocupa com os resultados. Que conta a sua história sem vergonhas, assertivo e veemente, mesmo que essa história possa mudar por completo no dia a seguir. Porque vai. O artista é o grande EU SOU que sabe que tem a autoridade para recontar, remodelar, reconstruir o mundo.

Para mim um Bardo é um artista que é maior que a vida. Que é um Outro como as muitas Deusas e não tem medo dessa alteridade. As pessoas que tomam para si o caminho do Bardo vivem fiéis a si mesmas e à sua verdadeira identidade, sem nunca deixarem de abraçar os seus corpos abundantemente frutíferos aqui na Terra, transparentes e correntes como águas, livres como o vento que vagueia, intensos como chamas ardentes. Um Bardo entrega-se sempre ao cão Divino no final da caça, porque a pincelada final na sua obra-prima estará sempre além das suas fantásticas capacidades de transmutação. Quem é Bardo entrega-se e deixa-se levar com o mais ardente dos desejos.

Um Bardo é um camaleão, um trapaceiro, um profeta. Brilha como o sol da meia-noite. Ou uma estrela negra. Seja ele druida ou não.

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