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Dia 4. Os Três Reinos

As cosmologias recordam-nos — e ao recordar-nos, alimentam-se — da verdadeira ordem do Mundo. E numa perspectiva celta, como parece ser aliás a da generalidade das culturas indo-europeias e algumas outras mediterrâneas, descrever a realidade é até bastante simples:

– Como explicar o Mundo?
– Três.

Três, como os patamares de existência, ou Reinos se a fantasia vier ajudar à metáfora. Como se vivêssemos numa grande casa com três andares: o Céu sobre nós, o Mar à nossa volta, a Terra sob os nossos pés. Ou, respectivamente, Nwyfre, Gwyar e Calas, segundo esse grande estudioso/profeta/vigarista (é favor escolher… Ou não) chamado Iolo Morganwg. Além de garantirem a estrutura do mundo exterior, estes três Reinos permeiam todos os seres, habitam-nos e (trans)formam-nos a cada instante: no ar que respiramos, no sangue que nos corre nas veias, nos ossos que nos sustentam. Por serem uma verdade tão elementar — passe o trocadilho — o Céu, o Mar e a Terra foram o penhor de muitos juramentos entre os celtas. Se alguém quebrasse a verdade, todas as forças naturais eram chamadas a precipitá-lo no abismo.

Três, como os portais que os antigos terão usado repetidamente para viajar entre os Mundos: o fogo em labaredas, as águas do poço, a árvore que se estende entre o Céu e a Terra. Todos reunidos no centro do altar, do bosque, das comunidades, do próprio Universo. Todos presentes em constante fluxo em nós que somos à vez lume e lama, que procuramos onde firmar raízes enquanto a folhagem perece sob o comando do Tempo.

Três, como as classes de seres: os que foram, os que são e os que sempre serão. Com a particularidade de que os que já foram continuam presentes nas estórias dos que ficam, na história do lugar que fica. Aquele que julgamos que sempre será.

É que isto do Tempo não funciona de modo linear no pensamento celta. Todos os fenómenos decorrem em ciclos, do nascimento até à morte, seguindo-se um novo nascimento. É assim que procedem as estações. Mais ainda: em simultâneo. Verão a norte, Inverno a Sul; alimento para uns, chacina para outros; correcto num dado contexto, errado noutro. A ordem cósmica, vimos já, funciona em tríades, interdependentes como no sinal do triskelion. Como poderia existir verdade, nessa mesma ordem, se todas as possibilidades fossem meramente dualistas? Além da tese e da antítese, existe a síntese, mais radical, profunda e abrangente que a soma das suas partes. Além do pé da letra e dos seus espaços, existe a vida, que é tudo é nada.

– Como explicar o Mundo?
– Três.

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