Samhain. Não há volta a dar-lhe.

Não há volta a dar-lhe... À medida que os dias se tornam mais curtos para darem lugar à escuridão do Inverno, eu sinto, ou melhor, eu sei que uma grande mudança está para acontecer. Também os meus antepassados o sabiam, enquanto colhiam a última das colheitas e enfrentavam o grande Desconhecido da estação fria. O que quer que as três colheitas tivessem aglomerado determinaria o seu destino: ou abundância e gozo ao calor da lareira, ou grandes percas, fome e morte.

O Samhain é sem dúvida um tempo de liminaridade. Um tempo para colher, mas também para começar a semear a próxima colheita; para abater a maioria do gado para obter carne, à excepção de alguns reprodutores selectos. Um tempo para confiar no silêncio profundo e sempre fértil da Terra.

Tal como durante o Bealtaine, o véu entre os vivos e os que já partiram está mais ténue, e diz-se que os espíritos vagueiam livremente pela terra, ora visitando os seus entes queridos ora assombrando pelas ruas os menos precavidos. De qualquer dos modos, os antigos sabiam já que a única resposta possível era a hospitalidade. Poriam a mesa de jantar para os defuntos, na Irlanda (a minha cultura-modelo neste caminho) como aqui também em Portugal, ou dariam comida aos pobres, em nome dos mortos e pela graça de Deus.

Sempre que os opostos se aproximam, a verdade fica também mais exposta. Durante este período, os antigos irlandeses recorriam à divinação, e a maioria das leis da terra eram suspensas. "A letra da lei significa a morte", pois claro, enquanto o Caos, manifesto em disfarces e pantominas, libertava os corpos para colher, mais do que cereais, sabedoria indescritível. Afinal, é-nos dito pela mitologia que foi nesta altura do ano que a deusa Morrigan teve relações com o Dagda para lhe garantir a vitória no combate, tudo isto enquanto ambos moldavam a paisagem ao seu redor.

Parecem ser fracas as provas de que o fim do Verão marcava de facto o início do novo ano nas sociedades celtas, à excepção talvez da ilha de Mann. Apesar disso, para mim, ainda muitos anos antes de sequer considerar trilhar este caminho, esta altura do ano sempre me incitou a largar mão de cada morte por reconhecer em mim. Para apagar e depois acender novas chamas na minha lareira. Hoje, a festa de Samhain também me evoca o meu parentesco inerente e radical com todos os seres, neste e em qualquer outro mundo que haja por vir. Recorda-me do quão grato e generoso devo ser, pois estou ligado a todas as coisas, sempre dependente, sempre vulnerável. E é preciso uma grande vulnerabilidade e uma exposição consciente à escuridão do Inverno para que surjam coisas grandiosas por altura do regresso do Sol. O Samhain tornou-se facilmente o meu portal para cada ano novo, pois lembra-me de que sou mais sábio por já ter ido ao abismo e voltado. Porque já estive frente a frente com o escuro, e por isso nada mais à minha volta voltou a parecer o mesmo.

E quanto a isso, não há volta a dar-lhe.




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