Literatura

Contra-luz

Por agora tens que descansar.

Por agora tens que vergar a tua vontade e descer à câmara escura onde se suspendem todos os sentidos e permanece apenas aquela saudade lenta e incómoda do movimento. Pois agora é o momento de descansares o corpo para libertares a mente, e como nos céus, os teus movimentos são cada vez mais estacionários. Mínimos. Primários. Fetais.

Faz conforme te foi instruído. Abraça o Inverno. Faz-te Inverno.

Por agora tens que te entregar a esse silêncio perturbador da câmara de onde a luz parece esvair-se a cada dia que passa. Irreversivelmente, dirias. Sentes medo. A escuridão é imensamente maior que tu, que os teus planos, que as tuas rotinas. Ela determina o teu tempo e termina os teus tempos. Ela revela todas as tuas sombras. Dolorosas. Julgas ouvir vozes, alucinações várias que chegam através de ti mas não te pertencem. Revoltas-te. Recusas fazer o luto. Como seria de esperar, a negação é sempre a primeira fase do processo.

Mas faz conforme te foi instruído. Aceita o Inverno. Faz-te Inverno.

Por agora precisas de parar por inteiro e conservar energias. O pior do frio está ainda por chegar, e vais precisar de todas as tuas forças para enfrentar os rigores do tempo de todos os silêncios. Do silêncio em que estás semeado para um dia renasceres em carne viva e espírito desperto. Vais precisar de enfrentar os gritos que te chegarão da tua própria alma, mais claros que nunca, e estar a postos para a aparição de onde poucos conseguiram sair vivos e sãos.

Faz conforme te foi instruído. Escuta o Inverno. Faz-te Inverno.

Do grito da tua alma discernirás um chamamento capaz de trazer de volta o próprio Sol como os rebanhos aos campos. Na câmara escura terás a visita de um pequeno raio de luz que aos poucos banhará a tua fronte, o teu rosto, depois o resto do teu corpo, depois a sala inteira. Não reconhecerás o teu ambiente à primeira vista, e depois verás que tu mesmo mudaste de forma. És outra pessoa, de sobrolho radiante e lábios proféticos.

A promessa cumprir-se-á. Tudo porque te fizeste Inverno.

À saída, encontrarás um mundo muito diferente do que deixaste no fim do Verão. Poderás sentir uma certa confusão. Poderás não perceber o que foi feito dos montes que agora são vales, sentir que o firmamento se fez oceano e o mar foi sugado pelo céu. E o ar irrespirável, parco combustível para a chama que trazes em ti. Mas persiste. Nem o mar nem a terra nem o ar passarão sem que a roda gire uma e outra vez, até que cada ser encontre a sua nota na Grande Canção de todas as coisas. Então saberás que nada foi por acaso na tua caminhada: o primeiro convite, os sinais, a câmara escura, a manhã seguinte.

Então terás que continuar a fazer-te Inverno até que a luz se cumpra por inteiro. Pois que ela nunca tarda em chegar, e enquanto houver sombra no mundo, chegará sempre.

A luz invicta. O Sol que em ti habita e irradia para toda a Humanidade.

Texto originalmente publicado no número 0 da Ophiusa, a revista em língua portuguesa da Ordem dos Bardos, Ovates e Druidas

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