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No princípio era o silêncio. E de súbito o silêncio se fez grito primordial, urgência. Desejo ardente. De um encantamento tamanho que da explosão se fizeram estrelas, planetas, galáxias inteiras. E também continentes e oceanos, vales e montanhas, árvores que falam baixinho quando paramos para as escutar. Vieram ainda animais de escamas, pêlo e pluma. E nós humanos, pelo meio.

Dizem que ainda hoje os deuses governam os dias e as noites, o amor e a morte. Mas se foi do silêncio que todas as coisas emergiram, foi pela poesia que ganharam o seu primeiro fôlego. Foi pela poesia que viemos a ser muitos. Deuses, espíritos, fantasmas, memórias, sombras, pedras, plantas, animais, novos e velhos. Todos, de certa forma, viventes. Assim se concedeu a cada ser uma melodia única e invicta, e uma voz com que cantar. Assim se colocou em andamento a grande Canção do Mundo. Ainda hoje dançamos ao seu ritmo; uns a contra-gosto e contrapasso, outros tecendo a mesma dança para que toda a gente possa entrar na roda.

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A primeira das questões propostas pelo desafio dos 30 dias druídicos é provavelmente a mais significativa. Antes de se explicar como se pratica a druidaria, importa saber porquê praticar esta via e não outra qualquer. E aqui o “porquê” encerra também um “para quê”: qual a finalidade de se investir o nosso tempo, as nossas decisões, e portanto a própria vida, num determinado caminho cujos frutos tardam necessariamente a chegar.

Muita da discussão em torno da druidaria ou do druidismo, sem grande espanto, parece girar em torno do conceito de “tradição”. O que resulta algo irónico para uma prática inspirada num grupo de pessoas da antiguidade sobre as quais pouco ou nada se sabe, e que só há 300 anos começou lentamente a tomar a forma que hoje se lhe conhece. No entanto, continuamos a focar-nos no passado remoto como se de uma idade de ouro se tratasse, onde os humanos e os restantes seres viviam em perfeita harmonia e as sociedades eram inteiramente igualitárias… Ao contrário de tudo o que veio a seguir a Constantino. Não que exista algo de errado no druidismo reconstrucionista: se alguém sentir atracção por uma prática politeísta inspirada ao pormenor nas religiões pré-cristãs da Europa, pois que assim seja. Mas não é essa a minha motivação pessoal.

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Depois de muitos falsos arranques e adiamentos, decidi finalmente aceitar um desafio que já faz as rondas na Internet desde há alguns anos. Em 2011, inspirada por iniciativas similares em que se é desafiado a fazer publicações de acordo com um determinado tema, todos os dias, durante um mês, a autora Alison Leigh Lilly criou os “30 Dias Druídicos”. A ideia é discorrer de forma mais ou menos criativa sobre como se vive a druidaria, uma faceta por cada dia.

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“A letra mata”. Ontem como hoje, sobretudo quando o Awen, a eterna novidade do presente, nos bate à porta e nos recusamos a convidá-la a fazer parte das nossas vidas. É por isso que o renascimento druídico, desde os tempos da Ancient Order of Druids, se recusou a criar mais um -ismo a juntar às muitas doutrinas reveladas do mundo. Ao invés, preferiu desenvolver uma prática que se assemelha mais a um ofício que a uma cartilha, uma verdadeira arte do espírito em vez de um dogma fechado. Chamaram-lhe Druidry em vez de Druidism, ou Druidaria, e não Druidismo, numa tradução directa.

O Druidismo, ou a Druidaria, não consiste na adesão a um credo, mas sim numa prática transformativa de restabelecimento de laços. Uma experiência de abertura gradual do espírito às várias existências, com quem estamos todos relacionados: os que já foram, os que são e os que serão sempre.

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Por agora tens que descansar.

Por agora tens que vergar a tua vontade e descer à câmara escura onde se suspendem todos os sentidos e permanece apenas aquela saudade lenta e incómoda do movimento. Pois agora é o momento de descansares o corpo para libertares a mente, e como nos céus, os teus movimentos são cada vez mais estacionários. Mínimos. Primários. Fetais.

Faz conforme te foi instruído. Abraça o Inverno. Faz-te Inverno.

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