Perfil

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Como muitas outras pessoas, tenho vários nomes. A maior parte do tempo chamam-me Fábio. Ou Flávio. Ou Cláudio. Ou nenhum destes nomes. Eu compreendo, a sério. 40 bits de informação e um acento são muito mais do que qualquer pessoa é capaz de comportar no final de um dia cansativo. Mesmo que se trate de um parente próximo. E afinal de contas, o que há num nome?

Às vezes sou definido pelo que faço. Isso significa que hoje em dia algumas pessoas me conhecem como “aquele copywriter em freelance”. Por outras palavras, tenho uma das poucas profissões no mundo em que sou pago para escrever criativamente. Por outras palavras ainda, ganho dinheiro a contar histórias. Já tive a minha quota-parte de empregos precários. Além de ter vendido a minha alma, se a tiver, aos deuses dos mercados, sou também web designer, embora hoje em dia seja raro ter a oportunidade de exercitar as minhas capacidades de programação. Antes disso, era locutor e produtor de rádio, com alguns turnos de jornalismo à parte. Cheguei mesmo a trabalhar como operador de call-centre, o que me deixou com uma fobia aos telefones um tanto ou quanto incómoda. Escusado será dizer que sonho com o dia em que haverá smartpagers à venda.

Aquilo que as pessoas me chamam também depende do lugar onde nasci. Sou açoriano. O meu segundo nome vem do santo padroeiro da minha ilha-natal (Miguel, já agora, caso te apeteça conversar com os anjos). No entanto, o meu Cartão de Cidadão diz que sou Português, e de facto vivo agora em Lisboa, o que de qualquer modo deve implicar o mais profundo amor pelo oceano e pela costa marinha. Tudo factual, excepto na parte em que não sei nadar. Dependendo da pessoa a quem perguntem, também podem ficar a saber que tenho um temperamento calmo e contemplativo, o que é verdade, ou que tenho tendência a acreditar no destino, o que é falso.

Parte de quem sou é também definida pelos nomes que atribuo aos outros. Nasci de uma mulher britânica, e a minha lingua materna é literalmente o inglês. Homem de sete, ou sobretudo, duas línguas, mestre em nenhuma, cidadão de cada palavra: sempre vivi entre dois mundos, o meu ambiente e o país da imaginação, enquanto tentava gerir os meus sentimentos de permanente exílio ao mesmo tempo. No entanto, as coisas mudaram depois de uma série de viagens à Grã-Bretanha e Irlanda onde pela primeira vez senti um puxão inesperado, uma atracção irresistível à terra ela mesma, como nunca me tinha acontecido com terra alguma, a alegra de finalmente pertencer a um lugar. Sentia-me em casa.

A terra havia-me chamado pelo meu verdadeiro nome.

Apesar das minhas melhores intenções, voltei sempre a Portugal nas datas marcadas nos bilhetes, e desde a minha primeira viagem que venho renomeando o mundo inteiro outra vez. Saber onde fica a nossa casa pode ser algo extremamente poderoso, pois quem tem um ponto de referência nunca pode ficar verdadeiramente perdido. Renomear cada coisa que julgava familiar segundo novas coordenadas é uma forma de me reconciliar com o lugar de onde vim, pois este perde assim todo o poder de me chamar a si como seu. Um exercício altamente recomendável.

De modo a manter essa ligação viva, coloquei o meu temperamento introspectivo, ou como alguns diriam, místico a render. E garanto-te, tenho uma lista interessante de nomes nesse capítulo.

Como a maioria das pessoas nascidas em Portugal, fui educado como católico. No entanto, a minha primeira experiência religiosa a sério aconteceu apenas na minha adolescência, junto das Testemunhas de Jeová. Seguiu-se um período de depressão, e passei por várias fases de compromissos de graus diversos, nomeadamente com o espiritismo, o neopaganismo, o gnosticismo, a Fé Bahá’í, o budismo, o daoísmo, o unitário-universalismo e sim, alguma militância católica como catequista e líder de grupos de jovens. Acabei por me tornar ateu, e foi o meu interesse resistente, porém ridículo para alguns, pela religião que me trouxe de volta à contemplação das deidades.

Fiz muitos progressos no que toca a tentar perceber o que é que da minha atracção pelo mito e pelo ritual é verdadeira sede e o que é apenas co-dependência aprendida com os anos. Antes de Sam Harris e do suposto lunático ocasional que calha sentir-se tal como eu me sinto, “espiritualidade” era um palavrão nos meios cépticos. Pior ainda, alguém identificar-se como uma “pessoa espiritual” podia valer-lhe o rótulo de seguidor de Alain de Botton. Numa era de mentes tão abertas que as suas faculdades de razão há muito que voaram, a espiritualidade é ainda um tema bastante incompreendido, tanto por crentes como por ateus.

Quanto a mim, o que sobreviveu daqueles dias em que suportava uma relação abusiva com o não-tão-Todo-Poderoso e mantinha a minha boca calada para o meu próprio bem, foi o amor gratuito pelo Silêncio. Para além de todos os mitos e invocações, a falar mais alto que toda a Babel dos deuses, existe um mistério, um permanente rumor de expectativa. E eu tenho estado a desenterrar a minha própria capacidade de escutar esse rumor, uma habilidade que há muito julgava perdida, algures a seguir à última linha do meu último caderno de poesia.

Sim, ainda sou um poeta. Não, não quer dizer que me vás encontrar tão cedo na estante mais próxima. Primeiro, não sou assim tão bom a escrever em verso, não obstante o que os meus amigos mais bem-intencionados possam dizer, e segundo, ninguém tem tempo para investir numa eterna promessa como eu. Estes dias, para parafrasear Ross Nichols, a maioria da minha poesia acontece no mundo dos actos. Acontece quando me sento em meditação e escuto o tão celebrado som do Silêncio. Acontece quando caminho calmamente, sentindo a Terra sob os meus pés, com desejos de paz para todas as pessoas ao meu redor. Acontece quando celebro as estações, a viagem do Sol do caos para o ritmo e a rima, de morte em morte. Acontece nas florestas, num abraço forte, numa polémica acalorada. Tudo está vivo e fala. “No íntimo de tudo está a semente de tudo”.

Serão poucas as diferenças entre o antigo eu, um qualquer estudante humanista do Buddhadharma, e o eu actual que pratica de forma ainda mais duvidosa uma tradição telúrica e mantém as mesmas inclinações orientais e esotéricas. Já costumava celebrar as estações e as luas, mas só hoje em dia as pessoas costumam chamar-me de druida. Seja como for, vai visitando esta página com regularidade. Na vida as coisas mudam muito rápido.

Ser chamado de nomes pouco usuais é uma coisa espantosa. Porque afinal de contas, a maioria das pessoas dá-se muito bem na vida com menos nomes do que as outras. O resto de nós não se pode dar ao luxo de ser anónimo. Nunca. Quer se seja uma mulher e/ou queer, poliamorosa e/ou negra, uma pessoa ateia, politeísta, com uma deficiência física, quer se seja pobre. Uma pessoa indigente. Até hoje, a distância entre mim e um cidadão comum com plenos direitos está nas mãos daqueles que tiveram a sorte de não se preocuparem com o facto de terem nomes a mais, rótulos pesados carregados de julgamentos sobre o que fazem na cama, a sua contribuição para o crescimento populacional ou quaisquer superstições que alberguem na cabeça. Motivo pelo qual tenho uma estranha atracção pela controvérsia e para dizer, ou melhor, escrever o que me vai no pensamento, e levar algumas polémicas que me são próximas até às derradeiras consequências da razão. Algo que desafia inclusive o meu afamado medo de conflitos. As minorias têm o direito de escolher os seus próprios nomes e de os transcenderem à sua vontade. E isto, dizem muitos, faz de mim esquerdista. E um activista.

Este é o dia de todos os nomes. Este é o dia de ir além dos nomes. Esta é a manhã do Silêncio. Alto e em bom som.

Por isso, fica por aí, toma um chá comigo. Esta vai ser uma grande viagem.

Faço votos da paz mais inquieta.
Cumprimentos com a voz do vento,

Fábio Barbosa

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